RSS

Patente n° 610861


Quando Alhazen recriou uma imagem projetando luz através de um pequeno orifício, de certa forma, nascia o aparato científico-tecnológico capaz de reproduzir imagens. Séculos mais tarde, a projeção de imagem por si só, deixou de ser palatável. A palavra “registro” impregnava a ciência de perseverança e inquietação; após o advento da fotografia, o mundo deixou de ser o mesmo…

Finalmente o tempo tinha sido congelado. Uma caixa escura deixava passar luz por um pequeno orifício sensibilizando uma superfície quimicamente preparada. O daguerreótipo, rapidamente adotado pelo governo francês, juntamente com a oficialização da carreira de fotógrafo, impulsionaram novas pesquisas que possibilitaram a popularização do registro fotográfico tal como conhecemos atualmente. Antes, é conveniente destacar que a fotografia é composta por uma intrincada combinação de fatores, equalizando fenômenos óticos e químicos. O processo digital de obtenção da imagem, será assunto para outro Post. Abordaremos aqui, a evolução dos processos químicos, que possibilitaram o desenvolvimento da fotografia e do cinema, não necessariamente nessa mesma ordem.

Se o ouro foi importante para financiar as pesquisas, a prata foi o próprio objeto de pesquisa. A Luna Cornata (Cloreto de Prata) que exerceu fascínio nos alquimistas medievais pelo enegrecimento ao contato com os raios solares, foi apresentada em forma de Nitrato de Prata em 1614 pelo físico e químico alemão Angelo Sala (1576-1637). Pulverizando nitrato de prata em papel, Sala criou imagens efêmeras em negativo. Esses estudos químicos em superfície plana se estenderam pelo século XVII e em 1725 Johann Heinrich Schulze (1684/1744) explicou  os processos químicos responsáveis pelo escurecimento dos sais de prata e prolongou um pouco o período de fixação das imagens que obtinha. A prova científica foi realizada por Jacopo Bartolomeo Beccari(1682-1766), publicada em 1757  nos Comentários da Academia de Bolonha, servindo de base para o estudo com insetos de Thomas Wedewood e a eletricidade de Humphrey Davy no século XIX. Nada pôde ser preservado, tendo em vista que a reação química utilizada não sofria interrupção, escurecendo qualquer imagem até torná-la totalmente negra.

Literatura de Ficção Giphantie de 1760. Escrita por Charles-François Thipagne de la Roche

Além da interrupção da reação química, ainda havia o problema da fixação da imagem. Este desenvolvimento tecnológico urgente fez com que uma luta silenciosa e crescente surgisse na classe científica: a patente.

A cultura de registro de patente, forçava o rápido desenvolvimento tecnológico, uma vez que os recursos investidos em pesquisas podiam ser compensados pelo lucro obtido na comercialização do invento. Em 1836 Louis-Daguerre registra o Daguerreótipo, e no mesmo ano, William Henry Fox Talbot reclama a prioridade da patente com o Calótipo. O governo francês comprou os direitos do Daguerreótipo tornando-o domínio público, o que facilitou o desenvolvimento da técnica de fixação de imagens.

Qual seria a nova problemática? Como realizar todos os processos fotoquímicos mais rápido?

A passagem do planeta Vênus entre o Sol e a Terra em 9 de dezembro de 1874, foi o motivo principal para o desenvolvimento da cronofotografia; o astrônomo francês, Pierre-Jules_César Janssen  (1824-1907) utilizou a emulsão Daguerre e conseguiu captar 48 imagens sucessivas  em 72 segundos. Os resultados mais expressivos foram obtidos por Muybridge e Marey. A engenharia de precisão entrava em campo para ajustar a velocidade de abertura do obturador, possibilitando diferentes concentrações químicas de emulsão. Como Marey era fisiologista e seu interesse era praticamente científico, Muybridge aproveitou e explorou seu potencial econômico. Em julho de 1878 patentes foram requeridas por Muybridge na Inlgaterra, França, Alemanha e Estados Unidos.

Série Horses – Eadweard Muybridge 1879

Georges Demenÿ (1850-1917) foi um médico, biólogo e físico belga. Aluno e assistente de Marey, foi o responsável pelo desenvolvimento e aprimoramento do fuzil cronofotográfico. Em 1882 é construída a primeira câmera de chapa fixa em cilindro de vidro. A fragilidade e a dificuldade de lidar com as chapas úmidas, desencadeou uma disputa ferrenha entre os cientistas daquele período. Em 27 de julho 1884, o americano George Eastman (1854-1932) e W. H. Wlaker registram a patente de papéis fotográficos positivo e negativo. O papel negativo, era revestido por uma camada de gelatina de brometo de prata e podia ser destacado do papel de suporte, tornando-se uma fina película fotossensível. Eastman utilizava rolos de papel que se adaptavam a qualquer câmera e comportavam 24 a 48 imagens. Em 1888 Marey e Demenÿ adotam os rolos fotográficos Kodak de Eastman. Havia furos nos filmes Kodak, mas inicialmente existiam apenas para demarcar os limites dos negativos, e não para tracionar a tira fotossensível, problema que será resolvido por Dickson, no desenvolvimento do Kinetóscópio de Thomas Edison.

Foto por Cronofotografia. Etiéne-Jules Marey 1883

Em 1990 Marey ficou intrigado com um novo suporte, o celulóide, patenteado em 1855 por Alexander Parkes sob o nome de parkesine. Em 1869, os norte-americanos irmãos Hyatt, requereram em New Jersey a patente de uma película similar. Em 1872 o nome celulóide apareceu na patente solicitada pela Celluloid Manufacturing Company of Albany. Nesse período, Muybridge tentou criar sociedade com Thomas Edison, levando ao conhecimento de seu conterrâneo, os estudos de Marey. Edison criou interesse e sozinho, entrou na corrida das patentes.

Este é o ponto em que se define uma das epifanias do cinema. Marey e Demenÿ utilizam o celulóide de 90 mm e bobinas de filmes Eastman. Marey desenvolve processos de captura do movimento e projeção utilizando celulóide. Thomas Edison emprega Willian Kennedy Dickson (1860-1935), que testou películas de diferentes bitolas e definiu como modelo standard o atual 35 mm. Influenciado pelo trabalho de Emyle Reynaud, Dickson e Edison implementam o sistema de perfuração permitindo a utilização da tração da película, obtendo maior velocidade e precisão.

Hannibal Goodwin (1822-1900) foi o real inventor da película transparente, flexível e fotossensível. Este padre episcopal de New Jersey, abandonou o celibato em 1887 para dedicar-se à fotografia, quando entrou com pedido de patente de sua película fotográfica. O processo levou anos, muitos outros cientistas e inventores se apropriaram do filme fotográfico. Em 1889, a Eastman Photography Materials Company e Harry M. Reichenbach pediram nova patente para o mesmo produto desenvolvido por Goodwin. A renovação foi feita por Eastman em 1892 e após 11 anos de batalhas judiciais, a patente número 610861 é oficializada em 1898, cedendo os direitos  de invenção da película fotográfica à Hannibal Goodwin.

Película Transparente Flexível e Fotossensível de Goodwin adaptada por Dickson

Dois anos depois, Hannibal funda a Goodwin Film and Camera Company e antes mesmo de iniciar a produção de seus rolos de filmes, morreu devido aos ferimentos de um acidente ocorrido enquanto caminhava pela rua. A venda da patente foi confirmada para a companhia fotográfica de Nova York Ansco após processar a companhia Kodak de Eastman em $ 5.000.000 por infringir a lei de patente cedida à Goodwin.

About these ads

Sobre Administrador

Estudante e Professor de cinema. Espectador e Diretor de Filmes.

Uma resposta »

  1. Pingback: Primeiras Projeções Cinematográficas | Kinodinâmico

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

Junte-se a 100 outros seguidores