
Projeção de uma Guerra Iminente
Até 28 de dezembro, um ano inteiro haveria de passar antes da aclamada “invenção do cinema”. Alguns livros de história do cinema, citam somente a exibição pública do filme dos irmãos Lumiére ocorrida no final ano de 1895. É certo que muitas outras pessoas, e inclusive os próprios Lumiére, já haviam projetado algumas sessões públicas e privadas anteriormente. Para completar essa lacuna de informação, vamos apresentar alguns dos precursores: Lumière, Latham, Acres, Edison e Skladanowky.
Auguste (1862 – 1954) Louis (1864 – 1948) LUMIERE

Em 22 de Março de 1895, os irmãos Auguste e Louis Lumiére, fizeram uma sessão privada de seus filmes experimentais, como preparação para a exibição pública em 28 de Dezembro. Os Lumiére já produziam sua própria película de celulóide em 35mm, e construíram em sua fábrica, o cinematógrafo, aparelho cronofotográfico que tracionava a película tirando fotos em sequência.

A Saída dos Operários da Fábrica

Chegada do Trem à Estação
Dois de seus filmes experimentais estão popularizados, aparecendo em diversas releituras e aplicações na cultura pop. A Chegada do Trem à Estação (L’Arrivée d’un Train en Gare de la Ciotat) e A Saída dos Operários da Fábrica (La Sortie Des Ouvriers De L’ursine Lumiere), não precisam ser encarados como filmes. Pense neles como exercícios de gravação e projeção do novo aparelho tecnológico. Os Lumiére não inventaram a linguagem cinematográfica em si, apenas conseguiram explorar a patente de um aparelho capaz de filmar e projetar, não se sabia na época que o cinema iria ter tanto sucesso. Atualmente estes filmes podem não nos surpreender, pois os procedimentos cinematográficos – de linguagem e psicologia – já estão introjetados na vida do ser humano do século XXI. Mas as relações do fotógrafo e até mesmo do público com a novidade tecnologia de gravar a realidade, eram bem diferentes em 1895. Nem todas as pessoas iam à escola, nem todos sabiam ler, e portanto, muita gente não tinha estudo e não compreendia as leias da física, ótica ou qualquer assunto científico. Tudo era meio mágico, o mundo estava saindo do universo dos mitos e de crendices aos poucos. A história de pessoas se assustando com a chegada do trem não é mito, e também não é exclusividade do trem. As pessoas ficavam realmente atônitas diante das imagens projetadas. Por essas razões o cinema, neste período, não tinha o caráter (nem o status) de arte. Os Lumiére estavam aprendendo a explorar um produto técnico-científico, ou seja, um brinquedo novo.
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Thomas Alva EDISON (1847-1931)

Nem todos acreditavam que o aparelho de reproduzir imagens ficaria apenas no campo científico-tecnológico, ou que não pudesse render um bom dinheiro. Edison sabia que, em pouco tempo, iria transformar seu Kinetoscope em uma máquina de fazer dinheiro. Neste caso não havia projeção, cada máquina exibia seu próprio filme, bastando o espectador colocar uma moeda. O interessante é que por ter desenvolvido o Fonógrafo, Edison conseguiu adaptar o Quinetoscópio para reproduzir, além da imagem, uma trilha sonora. O som era apenas um fundo musical, sem a necessidade de sincronia com o filme. Thomas Edison, já vinha realizando apresentações do seu invento desde 1894, mesmo só obtendo a patente em 1897. Utilizando seu outro invento, o Quinetógrafo, produzia para comercialização, várias historias encenadas, com atores e filmadas em seu estúdio Black Maria, desde 1893.

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Birt ACRES (1854 – 1918)

Desfrutando do posto de precursor, por ter realizado duas exibições publicas em 1895, está o Americano Birt Acres. Na Inglaterra da Raínha Vitória, Acres e seu parceiro Robert W. Paul (1869-1943) desenvolveram e construíram a primeira máquina de filmar e projetar em 35mm britânica, registrando-a em 27 de de maio daquele ano. Com seu Kineopticom realizou dois filmes em março: notwithstanding the work of Le Prince e Incident at Clovelly Cottage. Este último é o mais comentado pelo historiografia do cinema. Entre março e maio Acres e Paul realizam vários outros filmes, entre eles estão: Arrest of a Pickpocket , The Derby, Comic Shoe Black, The Boxing Kangaroo e Rough Sea At Dover (Imagem abaixo)

A seguir e em inglês, as palavras de um repórter no local, que descreve pessoas apreensivas durante a projeção do filme acima (inteiro), com medo de ficarem “molhadas pelas ondas” …“The second film (Rough Sea At Dover) represented the breaking of waves on the seashore. Wave after wave came tumbling on the sand, and as they struck, broke into tiny floods just like the real thing. Some people in the front row seemed to be afraid they were going to get wet, and looked to see where they could run, in case the waves came too close.”
Após as experiências do pioneirismo do cinema da Era Vitoriana, os parceiros Acres e Paul se desentendem e se tornam adversários, disputando o mercado na Inglaterra. Depois do fim da sociedade, quase não se ouve falar de Acres, que aos poucos vai caindo no esquecimento. O mesmo não pode ser dito de Paul, que construiu uma carreira sólida e obteve prestígio.
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Major Woodville LATHAM (1838 -1911)

O americano e professor de química Woodville Latham, era dono da Kinetoscope Exhibition Company, e seus filhos Grey e Otway eram os encarregados de dirigir uma das três empresas autorizadas à exploração comercial da invenção de Edison. Latham tentava aperfeiçoar o Quinetoscópio e para isso, se especializou em filmar lutas de boxe, um gênero que os americanos apreciavam. Em 1894, uma luta de boxe de seis rounds era exibida em seis diferentes quinetoscópios, cada um tinha um round da luta. O espectador colocava 1 nickel (moeda de 5 centavos nos E.U.A) na máquina e assista o primeiro round, se quisesse ver o restante teria que continuar colocando moedas nas outras máquinas, afim de se satisfazer. A última máquina, portanto, era a mais recheada de moedas. Latham seguia a tendência criada por Thomas Edison e aperfeiçoou um estilo de exploração de filmes, que viraria moda em todo mundo, mais tarde chamado de Nickelodeons.

No dia 20 de maio de 1895, uma exibição pública de quatro minutos ocorreu em Nova York, exatamente na faixada do número 153, na Broadway. Latham apresentou ali, uma luta de boxe, com o então famoso Young Griffo, que foi filmada no telhado do Madison Square Garden por Willian Kennedy-Lauire Dickson, funcionário que ajudou Edison a criar o Quinetoscópio. Esta era uma tentativa de realizar uma filmagem de um luta inteira, pois não queria gravar apenas 1 minuto por vez. Sua ideia era aumentar o tambor para caber 48m de película e fotografar à 30 quadros por segundo, ao invés de 40 quadros costumeiros.

Técnica de Loop – impressão de continuidade
A importância da edição como elemento crucial no processo de realização de um filme começa a ser desenvolvido por intuição. Latham entendia que a fluidez da luta seria melhor captada pelo espectador e, portanto, divida depois, se filmada toda de uma vez. Neste processo de aperfeiçoamento da técnica criou uma maquina chamada Latham Loop, onde desenvolveu um sistema de exibição contínuo, utilizando-se de um loop na imagem. Basicamente, o loop, é a técnica de criar uma impressão de continuidade. Essa impressão pode ser criada de duas maneiras: a primeira é unir a sequência de uma ação com a sequência invertida da mesma ação. Vai e volta infinito! A segunda, é como a apresentação da imagem ao lado (coelho pulando). A primeira imagem da sequência, é a do coelho tomando impulso para pular. Ele pula e a cena terminaria com a chegada do coelho no chão. Usando a técnica do loop, ao unir o coelho chegando ao chão com o início, onde ele pula, obtém-se uma pequena sequência, que pode ser exibida com fluidez de movimento, infinitamente, sempre se repetindo, repetindo, repetindo…
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Maximillian SKLADANOWSKY (1863 – 1939)
Em 21 de novembro de 1895 em Berlim, Maximillian, e seu irmão Emil Skladanowsky, fazem a apresentação pública de seu Bioscópio (Bioskop) no Wintergarten Hall. São exatos 27 dias de distância da apresentação pública dos irmãos Lumiére em Paris.


O Bioscópio era uma evolução natural do trabalho que Max, Emil e seu pai Carl desenvolviam. A experiência obtida com projeções de lanterna mágica, com muito sucesso pela Europa, e foi fundamental para tal aperfeiçoamento. Seu invento tinha como principio rodar duas fitas de filmes de 54 mm em Loop, sem a necessidade de interrupção para a troca de filmes. Era então exibido, intercalando as fitas, quadro a quadro, com um sistema complicado de tracionamento e com iluminação individual das tiras de filme.
O sucesso do Bioskop alemão durou pouco, mesmo projetando a uma frequência de 16 quadros por segundo, conseguindo certa fluidez nos movimentos, não foi capaz de competir com os inventos da França, Inglaterra e Estados Unidos.
Em pouco tempo, nada mais poderia ser feito, o cinematógrafo e sua invencibilidade, faria com que o Bioskop fosse, aos poucos, esquecido.

Fontes Inspiradoras:
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