Os Mecanismos da Visão – Parte II



A fonte luminosa emite luz. A luz viaja pelo vácuo, sofre um pequeno desvio ao entrar na atmosfera e se propagar pelo ar. Por fim, a luz atinge um objeto! Ao atingir o objeto a luz se reflete em todas as direções. Muitos desses feixes luminosos refletidos, entram na cavidade ocular gerando nosso primeiro momento visual.

Como vimos no post anterior, a córnea é uma primeira lente, situada na parte exterior do globo ocular, capaz de refratar a luz, corrigindo qualquer desvio que porventura ocorresse na mudança do meio de propagação da própria luz. Assim a segunda lente: cristalino e seu poder de acomodação, são os responsáveis por uma projeção correta das imagens na retina.

A retina é uma membrana composta de várias camadas revestindo a parede interna de cada globo ocular. A camada nervosa capta os impulsos responsáveis pela visão. Existem uma média de 130 milhões de células na retina e elas estão divididas em uma maioria chamada bastonetes - sensíveis à variação de luz – e uma minoria chamada cones - responsáveis pela percepção das cores. A maior parte dos bastonetes está espalhada pelas bordas da retina, deixando o centro para uma maioria de cones. Essa região central é chamada de fóvea retiniana onde existe o “ponto cego”, ligação entre o globo ocular e o nervo ótico, onde não há nem cones, nem bastonetes, portanto, sem formação ou percepção de imagem.

Grand Canyon de microuniverso

Já começamos… eis um resumo do como se comporta a visão durante o processo de transformação química da imagem:

Cada bastonete e cada cone possui cerca de 4 milhões de moléculas de pigmento, e cada uma dessas moléculas contém a Rodopsina, substancia que absorve a luz e quimicamente se divide em duas outras substâncias. O mais intrigante é que uma vez absorvida a luz, a molécula não poderá realizar o mesmo processo químico imediatamente. É preciso ficar “no escuro” por uns 45 minutos para que todas as moléculas de todos os nossos cones e bastonetes estejam aptos a absorver a luz novamente. Mas, se algo interromper o processo de absorção da luz, a Rodopsina poderá se recuperar, propiciando novamente a transformação química das imagens

Os Mecanismos da Visão – Parte I


Já se perguntou como conseguimos, de fato, enxergar o mundo que nos cerca? Mesmo que você nunca tenha se interessado por esse assunto, saiba que muitas pessoas, há vários milhares de anos, se interessaram. O processo visual intrigou Euclides que no ano 300.A.C. aplicou sua geometria matemática, criando o estudo da Óptica. Apesar da maior parte destes estudos estarem centrados na propagação dos raios luminosos, surgiram teorias sobre a visão.

Daí temos Alhazen, Leonardo da Vinci, Newton, Descartes, Berkeley, Peter Mark Rogget, Plateau e Horner, mas a grande guinada no estudo da percepção visual surge no século XIX com Fechner, Helmholtz e Wundt. Antes de nos aprofundarmos em teorias e mais teorias, devemos nos concentrar, antes de tudo, nos processos primários da visão.

O olho humano não é uma esfera! Na verdade, ele é um globo revestido por uma camada que possui duas partes distintas: uma transparente chamada córnea, e a opaca esclerótica. A córnea funciona como uma primeira lente convergente para que, grande parte dos raios luminosos, atravesse o músculo esfíncter da íris. No centro da íris, está a abertura pupila. Ao fundo está a retina que é a zona sensível tocada pelos raios luminosos.

Exemplo resumido da fisiologia do olho humano

 A verdade é que não vemos com os olhos, ou simplesmente com os olhos. A visão está dividida em processos distintos e a relação dos olhos com raios luminosos fazem parte das transformações ópticas, seguida pelas transformações químicas e nervosas.

Como o assunto é muito vasto, começaremos abordando tudo o que diz respeito ao processo Óptico:

O olho funciona mais ou menos como uma Câmara Obscura… Uma fonte luminosa emite seus raios que atingem um objeto. A reflexão desses raios passa por um pequeno orifício projetando a “imagem” no fundo. Como vimos anteriormente, a imagem formada na câmara obscura é invertida, assim também acontece com os nossos olhos. Toda imagem que vemos está de “cabeça para baixo”, e nessa primeira fase da visão, não há reconhecimento do que se vê, estamos apenas lidando com elementos responsáveis por absorver as imagens, que nada mais são do que raios luminosos.

Princípio da Câmara Obscura

Se seguirmos à risca a experiência da câmara obscura, veremos que a imagem invertida formada está totalmente “desfocada”, sem nitidez. Como podemos notar na imagem acima, poucos raios luminosos entram pelo orifício da câmara obscura, isso se deve à difusão, propriedade da luz refletida pelos objetos. A correção desse “problema” está em adicionarmos uma lente no orifício. Assim, todos os raios que, por difusão estariam espalhados, estão agora convergindo para um mesmo local, tornando a imagem mais nítida. Foi assim durante o Renascimento, é assim com as câmeras de foto e vídeo e é assim com os nossos olhos. Precisamos de uma lente para jogar todos esses raios para um mesmo ponto, afim de absorver maior quantidade de luz possível.

No olho humano a pupila é similar ao orifício da câmara obscura enquanto o cristalino é similar à lentes utilizadas para convergir os raios luminosos. Mas a pupila tem a propriedade de abrir e fechar, aumentar ou diminuir a quantidade de luz que passa por ela. Essa propriedade tanto nos ajuda a enxergar em ambientes com pouca luz, como existe para nos fornecer uma visão mais nítida. Com uma menor abertura da pupila, enxergamos com mais profundidade de campo, e também com maior riqueza de detalhes. Vá ao oftalmologista e faça um exame daqueles que uma moça educada pinga duas gotas de um colírio em cada um de seus olhos. Esse colírio fará suas pupilas dilatarem, a sensação então é que enxergamos mais claro ou mais escuro? Nananinanão, a sensação é que enxergamos mais desfocado, menos nítido. Isso é muito interessante!

O cristalino diferentemente das lentes usadas durante o Renascimento, é uma lente biconvexa, pode convergir variavelmente conforme o desejo do dono do olho. Esse “desejo” é chamado de acomodação, portanto, é propriedade do cristalino direcionar onde a imagem será projetada na retina. Essa propriedade leva em conta a distância da fonte luminosa, do objeto refletido e a posição do observador. É ou não é meio complexo :)  Pense bem, a luz que se propagou no vácuo, entrou na atmosfera do planeta e se propagando pelo ar entrou no orifício do seu olho; irá deixar de se propagar no ar e passará a se propagar em meio aquoso para no final atingir a retina. O cristalino por ser uma lente, irá refratar esses raios luminosos, ou seja, todo desvio que poderia acontecer na passagem do ar para o meio aquoso, o cristalino conserta convergindo tudo para a retina.

No próximo post, abordarei as características motoras do aparelho óptico humano, como por exemplo, a acomodação do cristalino e as diferentes projeções na retina no processo de percepção do que está próximo e do que está longe, ou seja, discernimento da distância.

 Fontes Inspiradoras:
AUMONT, Jacques. A Imagem. Campinas: Papirus Editora, 1993. GUIMARÃES, Luciano. A Cor como Informação – a Construção Biofísica, Linguística e Cultural da Simbologia das Cores. São Paulo: Annablume, 2000. Além de muito Google e Wikipedia, obviamente :)

Quinetoscópio: Cineminha de Primeira


Cinema pretendia o lucro, desde sua origem

Ainda zonzo com o imenso sucesso do fonógrafo, Thomas Edison recebeu em sua casa, a visita ilustre do Professor Muybridge. Dentro de quatro paredes, esses gênios conversaram sobre um assunto muito específico: “o futuro tecnológico no processo de geração de imagens”. Admirado com a capacidade de registro sonoro criado por Edison, Muybridge veio trazer-lhe uma proposta de sociedade, para a elaboração e desenvolvimento de um aparelho que pudesse fazer com as imagens o que o fonógrafo fazia com o som.

Edison ouviu toda a proposta e decidiu não seguir com o projeto… Percebeu que essa sociedade beneficiaria mais a Muybridge.

Alguns meses após essa reunião, Edison já possuía uma equipe especializada, pronta para desenvolver esse aparelho inovador. Atualizando-se sobre as pesquisas no campo fotográfico, percebeu que muito já estava desenvolvido, e que a criação deste equipamento era apenas uma questão de tempo!!  Os estudos e pesquisas fotoquímicas na França estavam mais adiantadas… Mas o dinheiro faz milagres, e Thomas Edison investiu pesado, criando em 1888 um fundo de financiamento para desenvolver pesquisas de fotografias animadas. Com tamanha estratégia e eficácia, criou o Laboratory Room Five munindo-se de excelentes químicos, fotógrafos e engenheiros, entrou na corrida pela invenção do cinema de forma atrasada, mas com força total

O primeiro, embora não fosse o primeiro

O registro de patentes, disputas judiciais, espionagem  e sabotagem fizeram parte deste período histórico para a ciência e as artes no final do século XIX. Edison impediu o desenvolvimento de pesquisas similares em território americano pois tinha registrado a ideia original do quinetoscópio e possuía um requerimento de privilégio, emitido pelo escritório de Patentes no dia 8 de outubro de 1888.

O jovem fotógrafo Willian Kennedy Laurie Dickson (1860-1935) estava à cargo de desenvolver o aparelho idealizado por Edison, e apesar de Edison possuir todo conceito detalhado, ambos não podiam afirmar que tal aparelho funcionaria.  Em 1889 Dickson faz testes e obtém minúsculas imagens em sequência. Apesar de parca empolgação, e do emprego do celulóide pouco se desenvolveu.

Quinetógrafo

Cientistas espiões, grande rede de informação e propinas, fizeram com que em novembro de 1889, uma revolução se instaurasse na Photographic Building - laboratório destinado à pesquisas de Edison. As pequenas janelas do fonógrafo ótico foram abandonadas, e a cronofotografia  de Marey é adotada como padrão de produção. Poderíamos dizer que Edison roubou a ideia, mas ele não fez exatamente isso. Na verdade ele se inspirou tanto na tira sensibilizada em celulóide idealizado por Marey, como nas perfurações para tração da bobina de filme criada por Émile Reynaud, em seu Teatro Ótico.

Utilizando-se de política e negociatas, compartilha tecnologia com Eastman, obtendo em 1891 o fornecimento de filme celulóide de 19mm. Em 31 de julho de 1891 Edison redigiu os pedidos de patente da câmera de 46 quadros por segundo – chamada de Kinetograph (quinetógrafo) - e o aparelho onde, individualmente, o espectador poderia apreciar os filmes animados – chamado de Kinetoscope (quinetoscópio). Mas nada seria muito fácil para Thomas Edison.

Produção de filme de Edison no Black Maria

Em solo americano, o departamento de patentes, possuía conduta estritamente rigorosa e investigativa. De pronto, não aceitou o pedido de Edison; montou sindicância para pesquisar se o pedido era referente à um aparelho original. Levou dois anos até a oficialização do Quinetógrafo em 1893. Nesse período, para impressionar o departamento de patentes e para se diferenciar do dispositivo de Marey, Edison adotou a bitola de 35mm dos filmes Eastman e sugeriu a mudança de rotação de captura e exibição. Edison achava que movimentos à 46 quadros por segundos pareciam mais rápido que o normal, e sugeriu que essa velocidade fosse reduzida para 30 quadros por segundo.

O maior interesse de Edison era a patente do Quinetoscópio que só saiu em 1897. Sua vontade era explorar o aparelho através de moedas, cada espectador colocaria uma moeda e assistiria um filme, entretenimento de primeira linha para a época. Mesmo sem o registro oficial, Edison iniciou a produção em larga escala, e para cumprir a demanda, precisava aumentar seu catálogo de filmes. em 1893 o Black Maria estúdio de filmagem de Edison funcionava plenamente. Em formato retangular os atores encenavam no fundo e em frente ao quinetógrafo, imenso e pesado que ocupava grande parte do ambiente.

Um dos primeiros estúdios de filmagem do mundo - Black Maria

No final de 1894 quase todos os grandes centros norte-americanos e canadenses já conheciam o Quinestoscópio. Outros setores começavam a enxergar nessa máquina e, principalmente, na vontade de assistir imagens animadas da população, um negócio extremamente rentável.

Os números de 2010


Os duendes das estatísticas do WordPress.com analisaram o desempenho deste blog em 2010 e apresentam-lhe aqui um resumo de alto nível da saúde do seu blog:

Healthy blog!

O Blog-Health-o-Meter™ indica: Mais fresco do que nunca.

Números apetitosos

Imagem de destaque

Um Boeing 747-400 transporta 416 passageiros. Este blog foi visitado cerca de 7,500 vezes em 2010. Ou seja, cerca de 18 747s cheios.

Em 2010, escreveu 17 novos artigos, nada mau para o primeiro ano! Fez upload de 117 imagens, ocupando um total de 44mb. Isso equivale a cerca de 2 imagens por semana.

O seu dia mais activo do ano foi 20 de dezembro com 170 visitas. O artigo mais popular desse dia foi A influência de Émile Reynaud no cinema.

De onde vieram?

Os sites que mais tráfego lhe enviaram em 2010 foram facebook.com, search.conduit.com, twitter.com, google.com.br e blogueiroscinefilos.wordpress.com

Alguns visitantes vieram dos motores de busca, sobretudo por seurat, delacroix, lanterna mágica, degas e edgar degas

Atracções em 2010

Estes são os artigos e páginas mais visitados em 2010.

1

A influência de Émile Reynaud no cinema agosto, 2010
1 comentário

2

Um novo olhar sobre a Pintura julho, 2010

3

Mary Tinha um Carneirinho outubro, 2010
2 comentários

4

Registrando o Imperceptível agosto, 2010

5

Design: O Robin Hood da arte. outubro, 2010
2 comentários

Patente n° 610861


Quando Alhazen recriou uma imagem projetando luz através de um pequeno orifício, de certa forma, nascia o aparato científico-tecnológico capaz de reproduzir imagens. Séculos mais tarde, a projeção de imagem por si só, deixou de ser palatável. A palavra “registro” impregnava a ciência de perseverança e inquietação; após o advento da fotografia, o mundo deixou de ser o mesmo…

Finalmente o tempo tinha sido congelado. Uma caixa escura deixava passar luz por um pequeno orifício sensibilizando uma superfície quimicamente preparada. O daguerreótipo, rapidamente adotado pelo governo francês, juntamente com a oficialização da carreira de fotógrafo, impulsionaram novas pesquisas que possibilitaram a popularização do registro fotográfico tal como conhecemos atualmente. Antes, é conveniente destacar que a fotografia é composta por uma intrincada combinação de fatores, equalizando fenômenos óticos e químicos. O processo digital de obtenção da imagem, será assunto para outro Post. Abordaremos aqui, a evolução dos processos químicos, que possibilitaram o desenvolvimento da fotografia e do cinema, não necessariamente nessa mesma ordem.

Se o ouro foi importante para financiar as pesquisas, a prata foi o próprio objeto de pesquisa. A Luna Cornata (Cloreto de Prata) que exerceu fascínio nos alquimistas medievais pelo enegrecimento ao contato com os raios solares, foi apresentada em forma de Nitrato de Prata em 1614 pelo físico e químico alemão Angelo Sala (1576-1637). Pulverizando nitrato de prata em papel, Sala criou imagens efêmeras em negativo. Esses estudos químicos em superfície plana se estenderam pelo século XVII e em 1725 Johann Heinrich Schulze (1684/1744) explicou  os processos químicos responsáveis pelo escurecimento dos sais de prata e prolongou um pouco o período de fixação das imagens que obtinha. A prova científica foi realizada por Jacopo Bartolomeo Beccari(1682-1766), publicada em 1757  nos Comentários da Academia de Bolonha, servindo de base para o estudo com insetos de Thomas Wedewood e a eletricidade de Humphrey Davy no século XIX. Nada pôde ser preservado, tendo em vista que a reação química utilizada não sofria interrupção, escurecendo qualquer imagem até torná-la totalmente negra.

Literatura de Ficção Giphantie de 1760. Escrita por Charles-François Thipagne de la Roche

Além da interrupção da reação química, ainda havia o problema da fixação da imagem. Este desenvolvimento tecnológico urgente fez com que uma luta silenciosa e crescente surgisse na classe científica: a patente.

A cultura de registro de patente, forçava o rápido desenvolvimento tecnológico, uma vez que os recursos investidos em pesquisas podiam ser compensados pelo lucro obtido na comercialização do invento. Em 1836 Louis-Daguerre registra o Daguerreótipo, e no mesmo ano, William Henry Fox Talbot reclama a prioridade da patente com o Calótipo. O governo francês comprou os direitos do Daguerreótipo tornando-o domínio público, o que facilitou o desenvolvimento da técnica de fixação de imagens.

Qual seria a nova problemática? Como realizar todos os processos fotoquímicos mais rápido?

A passagem do planeta Vênus entre o Sol e a Terra em 9 de dezembro de 1874, foi o motivo principal para o desenvolvimento da cronofotografia; o astrônomo francês, Pierre-Jules_César Janssen  (1824-1907) utilizou a emulsão Daguerre e conseguiu captar 48 imagens sucessivas  em 72 segundos. Os resultados mais expressivos foram obtidos por Muybridge e Marey. A engenharia de precisão entrava em campo para ajustar a velocidade de abertura do obturador, possibilitando diferentes concentrações químicas de emulsão. Como Marey era fisiologista e seu interesse era praticamente científico, Muybridge aproveitou e explorou seu potencial econômico. Em julho de 1878 patentes foram requeridas por Muybridge na Inlgaterra, França, Alemanha e Estados Unidos.

Série Horses - Edward Muybridge 1879

Georges Demenÿ (1850-1917) foi um médico, biólogo e físico belga. Aluno e assistente de Marey, foi o responsável pelo desenvolvimento e aprimoramento do fuzil cronofotográfico. Em 1882 é construída a primeira câmera de chapa fixa em cilindro de vidro. A fragilidade e a dificuldade de lidar com as chapas úmidas, desencadeou uma disputa ferrenha entre os cientistas daquele período. Em 27 de julho 1884, o americano George Eastman (1854-1932) e W. H. Wlaker registram a patente de papéis fotográficos positivo e negativo. O papel negativo, era revestido por uma camada de gelatina de brometo de prata e podia ser destacado do papel de suporte, tornando-se uma fina película fotossensível. Eastman utilizava rolos de papel que se adaptavam a qualquer câmera e comportavam 24 a 48 imagens. Em 1888 Marey e Demenÿ adotam os rolos fotográficos Kodak de Eastman. Havia furos nos filmes Kodak, mas inicialmente existiam apenas para demarcar os limites dos negativos, e não para tracionar a tira fotossensível, problema que será resolvido por Dickson, no desenvolvimento do Kinetóscópio de Thomas Edison.

Foto por Cronofotografia. Etiéne-Jules Marey 1883

Em 1990 Marey ficou intrigado com um novo suporte, o celulóide, patenteado em 1855 por Alexander Parkes sob o nome de parkesine. Em 1869, os norte-americanos irmãos Hyatt, requereram em New Jersey a patente de uma película similar. Em 1872 o nome celulóide apareceu na patente solicitada pela Celluloid Manufacturing Company of Albany. Nesse período, Muybridge tentou criar sociedade com Thomas Edison, levando ao conhecimento de seu conterrâneo, os estudos de Marey. Edison criou interesse e sozinho, entrou na corrida das patentes.

Este é o ponto em que se define uma das epifanias do cinema. Marey e Demenÿ utilizam o celulóide de 90 mm e bobinas de filmes Eastman. Marey desenvolve processos de captura do movimento e projeção utilizando celulóide. Thomas Edison emprega Willian Kennedy Dickson (1860-1935), que testou películas de diferentes bitolas e definiu como modelo standard o atual 35 mm. Influenciado pelo trabalho de Emyle Reynaud, Dickson e Edison implementam o sistema de perfuração permitindo a utilização da tração da película, obtendo maior velocidade e precisão.

Hannibal Goodwin (1822-1900) foi o real inventor da película transparente, flexível e fotossensível. Este padre episcopal de New Jersey, abandonou o celibato em 1887 para dedicar-se à fotografia, quando entrou com pedido de patente de sua película fotográfica. O processo levou anos, muitos outros cientistas e inventores se apropriaram do filme fotográfico. Em 1889, a Eastman Photography Materials Company e Harry M. Reichenbach pediram nova patente para o mesmo produto desenvolvido por Goodwin. A renovação foi feita por Eastman em 1892 e após 11 anos de batalhas judiciais, a patente número 610861 é oficializada em 1898, cedendo os direitos  de invenção da película fotográfica à Hannibal Goodwin.

Película Transparente Flexível e Fotossensível de Goodwin adaptada por Dickson

Dois anos depois, Hannibal funda a Goodwin Film and Camera Company e antes mesmo de iniciar a produção de seus rolos de filmes, morreu devido aos ferimentos de um acidente ocorrido enquanto caminhava pela rua. A venda da patente foi confirmada para a companhia fotográfica de Nova York Ansco após processar a companhia Kodak de Eastman em $ 5.000.000 por infringir a lei de patente cedida à Goodwin.

Design: O Robin Hood da arte.


A Inglaterra vitoriana que venceu Napoleão, retornou à industrialização de forma tardia. Os anos enclausurados no arquipélago fortaleceram seu sistema naval, o poder militar e o moralismo. A hipocrisia vitoriana que se opunha às ideias revolucionárias teve impacto no modus operandi da arte, fez socialmente a população retroceder e apenas na segunda metade do século XIX uma expressão cultural teve importância mundial.

Os industriais tinham que reaver o tempo perdido e tentar igualar a Inglaterra ao desenvolvimento técnico-científico de outras nações. Nesse processo os trabalhadores foram explorados, rebaixados culturalmente e a arte existente era subutilizada. O movimento Pré-Rafaelita, surge por oposição ao moralismo na tentativa de corrigi-lo e instigar a população a apreciar as artes, propondo temas bucólicos. Essa poética de reviver o ideal cavaleiresco afirma a necessidade de um novo naturalismo, porém o fio condutor não deveria ser a natureza, e sim a técnica pictórica residente em cada artista.

John Millais: Ofélia (1852) - Londes, Tate Gallery

Willian Morris (1834-1896) nasceu rico mas foi pensando nas classes menos favorecidas é que se tornou reconhecido. Totalmente influenciado pelos Pré-Rafaelistas, ficava indignado com os ornamentos industriais que serviam de decoração para uma minoria economicamente favorecida. Morris teve contato direto com Marx e Engels, tornando-se um multiplicador das ideias socialistas na Inglaterra. Ele defendia o retorno ao universo do artesanato, questionando a necessidade da representação figurativa: “Não é melhor construir o objeto ao invés de apenas representá-lo?”

O “artesanato criativo” era uma alternativa à produção em massa e ao consumo mecanizado, e pretendia extinguir a diferença entre o artista e o artesão.  A causa operária, trouxe para a arte o conceito de luta, assim sendo, a arte só conseguiria lutar com a empresa monopolista, transformando-se em uma empresa e falando a linguagem do capitalismo. Com programas concisos de produção, objetivos estéticos e ideológicos claros fundou a Morris, Marshall, Faulkner & Co., cujo foco era mobiliário e decoração, a empresa fechou alguns anos mais tarde, mas ficou reconhecida por fabricar móveis de alto padrão a preços populares.

Cadeira desenvolvida pela Morris, Marshall, Faulkner & Co. possui estilo do Império Britânico

Cama com motivos florais e cisnes em bronze e dourado.

Tampa de mármore e temas florais em bronze dourado

Arts & Crafts era o nome do movimento artístico responsável por pregar a “arte pela arte”. Ninguém melhor do que G.C. Argan para descrever esse momento histórico: a corrente pré-rafaelita e morrisiana, (…) visa à eliminação da especificidade das artes, à inserção direta da experiência estética na práxis da produção econômica e da vida social, à individuação de um estilo de arte capaz de se tornar estilo de vida”. Essa corrente de pensamento foi fundamental para a criação do estilo Art Nouveau da cultura cosmopolita da Belle Époque.  Neste período nas artes plásticas o Impressionismo era dominante quando a Art Nouveau cresceu entre a arte decorativa e a arquitetura.  Esse processo intelectual e cultural de ressignificação da arte perante a sociedade influenciará o trabalho de  Toulouse-Lautrec, Munch, Van Goh e Gauguin.

The Green Dining Room

Interior Arts & Crafts

Em 1891 Morris funda a editora KelmscottPress em Londres. A editora tinha como foco, a impressão de livros com design aprimorado. O Modern Style estava agora estampados nos livros, e rapidamente difundido e assimilado culturalmente. A paixão de Morris por livros não é menor do que sua importância para o Design e as artes. Durante seus estudos góticas e medievais, escreveu e publicou vários livros. Traduziu Eneida de Virgílio (1875) e a Odisséia de Homero (1887). Dois de seus livros influenciaram outros escritores que escreveram livros que atualmente foram adaptados para o cinema: C.S. LewisJ.J. Tolkien autores de Narnia e O Senhor dos Anéis, respectivamente.

Livros caprichados, bons para ler e ver!

Publicado em: às 21 de outubro de 2010 em 4:12 PM  Comentários (5)  
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Mary Tinha um Carneirinho


Gravar primeiro, ouvir depois

A vontade humana de retratar o que se  move (como foi dito em Posts anteriores) nasceu com o ser humano. O movimento que sempre foi associado à visão, exerceu no homem uma vontade insuperável de registro e reprodução. Esse processo levou milhares de anos e somente no Século XIX, aparelhos óticos cumpriram essa função, registrando e reproduzindo os movimentos do mundo real.

O som dificilmente é dissociado do cinema, tanto que atualmente nos referimos ao próprio cinema como produto audiovisual. O som faz muita falta, e via de regra ignoramos seu poder, tanto na construção da cena, atmosfera, como parte integrante da própria narrativa. Sabemos que o cinema foi mudo, e que o som “surgiu” depois, não é? Pode parecer estranho, mas o som veio muito antes…

O cinema sonoro sempre foi idealizado desde o pré-cinema, ou seja, desde os primeiros experimentos fotográficos que o homem tenta registrar o som. Aliás, o som rapidamente foi registrado e reproduzido por um aparelho que virou um produto de sucesso comercial, instituindo princípios de funcionamento que são utilizados até hoje. Como isso tudo se tornou o que temos, é o que vamos ver daqui para frente.

Fonoautógrafo

Antes do homem conseguir ouvir alguma gravação, apenas foi possível registrar o desenho do som. Em 1857, Édouard-Léon Scott de Martinville (1817-1879), criou o mais antigo sistema de gravação sonora: o Phonoautograph (fonoautógrafo), sistema composto por um cilindro sensível e uma agulha ligada a uma membrana. Quando um som era emitido, a membrana se movia, levando junto a agulha, fazendo um desenho no cilindro. O produto final não podia ser reproduzido, mas pela primeira vez, era possível registrar o som. Daí os estudos nessa área começaram…

Fonógrafo de cilindro

Somente vinte anos depois de Léon Scott na França, um americano conseguiu criar um aparelho com tecnologia superior. Thomas Alva Edison (1847-1931) é até hoje um modelo americano do self-made man, o autodidata herói que contribuiu consideravelmente para o avanço tecnológico de todo o planeta. Em 1877 ele apresenta o Phonograph (fonógrafo), aparelho que além de gravar o som, podia reproduzi-lo com incrível perfeição. Inspirado no telégrafo e no telefone de Grahan Bell, Edison queria gravar as conversas telefônicas, e assim depois de patentear a ideia, vendeu o aparelho como eletrodoméstico. Edison ficou rico rapidamente, tanto pelos aparelhos, como pelos cilindros de música que vendia. O fonógrafo tinha o princípio semelhante ao fonoautógrafo, o som era grafado e reproduzindo por um cilindro que podia ser substituído por outro com som diferente. Assim nascia a Edison Records, outra valiosa empresa de sucesso.

o Hit do momento, você só encontra aqui, na Edison Records

Edison em seus inúmeros testes para captar algum som, repetia constantemente a mesma frase: “Mary had a little Lamb” (Mary tinha um carneirinho). Esse invento foi crucial para que as pesquisas para o desenvolvimento do cinema através do Kinetógrafo e do Kinetoscópio, primeira câmera e primeiro dispositivo de exibição de filme, obtivessem sucesso.

e ele conseguiu...

A influência de Émile Reynaud no cinema


Mixando arte e tecnologia

O campo da ciência está em constante transformação, afirmações de ontem são contestadas por novas teorias hoje, simplesmente para serem derrubadas séculos mais tarde. Essa constante quebra de paradigmas é um processo natural na evolução do conhecimento humano.

O que pode acontecer com um homem que cria o último estágio de um processo de desenvolvimento tecnológico? Satisfação, reconhecimento, notoriedade? Com certeza, essas foram sensações experimentadas por Charles-Émile Reynaud (1844-1918) um professor de ciências e pintor francês.

A animação tornou-se um artigo colecionável desde que os primeiros experimentos científicos tornaram-se brinquedos. Com o surgimento do Zootrópio, séries de animação eram vendidas separadamente do dispositivo ótico, o que gerou uma demanda crescente por conteúdo animado. Émile Reynaud percebeu que no zootrópio as pessoas eram obrigadas a olhar através de pequenos orifícios, e mesmo assim, muitas dessas pessoas não conseguiam perceber os movimentos animados corretamente. Assim, em 1876 Reynaud apresentou o Praxinoscópio, que realizava o mesmo processo de percepção da animação obtida pelo zootrópio, onde a animação poderia ser visualizada de forma mais simples e sem esforço.

Praxinoscope

A genialidade de Reynaud foi a substituição dos orifícios por pequenas tiras de espelho. No praxinoscópio, cada desenho é refletido por uma única tira de espelho, e ao girarmos este aparelho, a alternância entre as imagens refletidas permite o processo psicológico de formação do movimento animado. Já em 1877, é lançado a versão de brinquedo do praxinoscópio. Em 1879, o Teatro Praxinoscópio permitiria a inserção de elementos de cena, dispostos em profundidade de campo; na tentativa de criar uma atmosfera e criar recursos de narrativa para as animações.

Essa invenção, bem como as posteriores, nos permitem perceber que Reynaud queria produzir um aparelho de contar histórias, talvez muito mais do que apenas criar ilusões de movimento. Em 1880 era lançado o Praxinoscópio em Projeção. Temos que admitir que este simples professor de ciências criou inúmeros avanços tecnológicos para um aparelho que, por si só, já era uma evolução técnica. Com o sistema de projeção, mais espectadores poderiam apreciar as animações criadas, e novamente este aparelho caiu no gosto popular.

Praxinoscope Projection, gravura ilustrativa de 1882

Foram oito anos de pesquisa e desenvolvimento, e no ano de 1888 Émile Reynaud cria o Teatro Ótico, o primeiro dispositivo de projeção de animações complexas, animadas na frequência de 15 quadros por segundo, e com duração média de 15 minutos. As Pantomimes Lumineuses, como eram chamadas, tiveram sucesso absoluto de público, com salas de exibição lotadas e ingressos vendidos ao montes. No início do ano de 1900, o Teatro Ótico tinha alcançado um público superior a 500.000 espectadores, Reynaud estava com grana no bolso e sorriso no rosto.

Ilustração apresenta a figura de Reynaud operando o dispositivo enquanto a multidão assiste à animação

Não por muito tempo…

Imagine o trabalho de criar um aparelho de exibição e projeção de animação antes da invenção do cinema. Agora acrescente a dificuldade de pintar 13.500 imagens sequenciais e colorir uma a uma. Agora imagine realizar isso tudo pensando na sincronia com a música que seria orquestrada ao vivo. Fácil? Quem é animador ou já teve a experiência de animar sabe o quão difícil é realizar essa tarefa. Assim, nascia a animação como conhecemos hoje, por isso que o Dia Internacional da Animação é comemorado no dia 28 de outubro, mesma data que, em 1892 ocorreu a primeira exibição do Teatro Ótico de Émile Reynaud.

Cartaz do espetáculo de animação no Teatro Ótico

Novamente a pergunta: O que pode acontecer com um homem que cria o último estágio de um processo de desenvolvimento tecnológico? Satisfação, reconhecimento, notoriedade? Com certeza, mas no caso do Teatro Ótico, esses sentimentos não perduraram. Três anos após a primeira exibição das animações de Reynaud, surge o cinematógrafo dos Irmãos Lumiére. Com o tempo, o dispositivo cinematográfico tornou o processo de filmagem, revelação e exibição mais dinâmico em relação ao tempo necessário para a elaboração de uma unica animação exibida pelo Teatro Ótico.

A impressão do movimento obtida pela câmera de cinema, é incomparável com qualquer movimento animado, principalmente pelo processo de identificação que ocorre na mente do espectador. Por exemplo, ao vermos uma galinha em uma animação, estamos vendo um animal da espécie “galinha”, portanto, vemos um exemplar genérico. No cinema o processo é diferente, ao vermos uma galinha, estamos diante “daquela” galinha distinta e específica. Esse fenômeno criado pelo cinematógrafo acabou em poucos anos, com o Teatro Ótico de Reynaud.

Cena de uma animação de Reynaud

A Chegada do Trem à Estação, filme dos Irmãos Lumiére

Derrotado, desiludido e inconformado por seu invento ter sido substituído, o Pai da animação reconhecido atualmente em todo mundo, teve um ataque de depressão e com marretadas, destruiu seu delicado e precioso invento. Juntamente com seus rolos de animação, atirou tudo no Rio Sena.  No dia 9 de Janeiro de 1918, Charles-Émile Reynaud morreu em um hospício francês onde passou seus últimos anos trancafiado.

Registrando o Imperceptível


Apertando o gatilho do Cinema

A fotografia tinha congelado o mundo, existiam milhares de registros que continham apenas instantes soltos e desconexos. A pose, herdada dos retratos pintados, se mantinha firme no modelo de composição fotográfica do final do Século XIX. Um dos motivos para se manter a mesma posição, é o tempo de exposição necessário para se obter uma foto bem nítida. Ao que parece, algumas pessoas se interessaram em captar o movimento das coisas, mas precisaram reformular o sistema de registro das imagens para obter melhores fotografias e com tempo de exposição cada vez menor.

Coube a Edward James Muybridge (1830 -1904), fotógrafo inglês radicado nos EUA, criar mecanismos para tornar possível a captura instantânea de imagens. As pesquisas óticas utilizando aparelhos fotográficos se multiplicavam em solo americano, Eastman e Edison eram a parte mais científica desse processo, enquanto Muybridge destinava seus experimentos para o campo das artes. O maior estímulo destes inventores era a possibilidade de exploração comercial de seus inventos.

Sequencia de movimento por Muybridge

As condições para um salto tecnológico podem ser incríveis e improváveis. Nesse caso específico, foi uma aposta que abriu portas para o reconhecimento do trabalho de Muybridge. Leland Stanford, ex-governador da Califórnia e um amante de cavalos, fez um rebuliço na cidade ao afirmar em 1872 que o cavalo permanece com as quatro patas no ar, durante o galope. Advinha quem foi contratado para solucionar esse problema? Na verdade, essa é a lenda propagada pelos cinéfilos e alguns livros que abordam essa fase do pré-cinema. Leland Stanford possuía um cavalo trotador, chamado Occident. Para compartilhar os movimentos de seu animal com amigos do exterior, ele propôs a Muybridge o registro deste movimento. Muybridge estaria diante de um grande trabalho: qual velocidade do obturador, como conseguir contraste do fundo e o cavalo?

Em 1877, Muybridge resolveu a questão. Ele criou um sistema com diversas câmeras equidistantes, que seriam acionadas eletricamente durante o percurso de um cavalo, que corria e trotava na frente de um pano branco. Assim, se a aposta tiver acontecido realmente, dos 24 fotogramas obtidos, apenas um seria necessário para comprovar a afirmação de Leland.

Fotograma do cavalo com as 4 patas no ar

Muybridge dedicou anos ao estudo do movimento e publicou livros importantes que influenciaram áreas como a zoologia, biomecânica e a fisiologia. Em 1878 apresenta seu aparelho Zoopraxinoscope, que tinha a função de projetar sequências de movimento criadas por ele mesmo.

 

Zoopraxinoscópio

 

Disco com animação

Quase que paralelamente aos estudos de Muybridge, um inventor francês chamado Étienne-Jules Marey (1830 – 1904) pretendia inovar o campo da ciência mesclando fisiologia com a anatomia. Tinha ficado famoso em sua juventude ao criar um inseto artificial, para provar que as asas dos insetos se movimentam na forma de um 8. Continuou seus estudos registrando o vôo das aves, e assim, inventou o Fuzil Cronofotográfico que imprimia uma série de imagens na mesma superfície fotossensível.

Seus estudos sobre o movimento dos eixos, articulações e membros de humanos e animais, se tornaram referência para vários campos da ciência e da arte. Após ficar famoso com sua publicação La Machine Animale, Marey realizou pequenos filmes em alta velocidade (60 quadros por segundo) criando a primeira percepção artística para a câmera lenta.

 

Esquema funcional do Fuzil Cronofotográfico

No final de sua vida, estudou as esteiras de fumaça, criando as bases para a formação dos primeiros túneis aerodinâmicos de vento. A herança do trabalho de Marey pode ser observada com mais evidência no curta-metragem Pas de Deux de 1967 de Norman Mclaren, além de  todo o sistema de Motion Capture, responsável por criar personagens totalmente computadorizados a partir da análise primária do movimento.

 

a
Pesquisas com esteiras de Fumaça

 

Atualmente…

Pausa Potencializadora


Caros leitores,

Este final de mês de julho o Kinodinâmico está acompanhando integralmente o Festival Internacional de Animação do Brasil – ANIMA MUNDI.

Por este motivo, estaremos retornando com novos post no início de Agosto.

grato pela compreensão

Kinodinâmico

Publicado em: às 21 de julho de 2010 em 9:19 PM  Deixe um comentário  

Um novo olhar sobre a Pintura


Impressão ao Nascer do Sol - Claude Monet - 1872

Com a fotografia, a realidade poderia ser copiada e reproduzida de maneira rápida e eficaz. A relação tempo-espaço estava modificada, e a arte da pintura seria a primeira vertente a demonstrar as consequências dessa transformação. O Naturalismo ficaria rapidamente démodé e muitos pintores abandonariam os temas ilustres e buscariam inspiração na ciência para criar elementos artísticos nunca antes explorados.

“Era a superação simultânea do clássico e do romântico enquanto poéticas destinadas a mediar, condicionar e orientar a relação do artista com a realidade”, já dizia Giulio C. Argan em seu livro Arte Moderna: do iluminismo aos movimentos contemporâneos (e-book). Essa superação está centrada na imensa pesquisa pictórica, regida pela liberdade de percepção, temas e convencionalismos acadêmicos.

Pós-Impressionista Paul Cezáne em 1904-6 O Monte Victor Rephilly

O nome impressionistas surgiu de uma gozação, à pintura de Monet Impression, soleil levant de 1872. O apelido pegou em tom de desafio, e os artístas estavam prontos para, cada um à sua forma, chacoalhar para sempre, a arte da pintura. Chevreul (1786-1889) e sua lei do contraste simultâneo das cores, concluiu que uma cor clara num fundo escuro fica mais viva e o cinzento ganha a cor complementar à que lhe está justaposta. Uma cor fria e uma cor quente justapostas se exaltam simultaneamente. Assim como uma cor quente com uma cor quente se esfriam, ao contrário de duas cores frias, que se aquecem.

A Torre Eiffel - 1889 por Georges Seurat

Esses fundamentos foram muito utilizados por Georges Seurat (1859-1891) no desenvolvimento de sua técnica do Pontilhismo. Segundo sua técnica, a composição dos tons se daria por um processo visual de percepção, ao invés de misturas de tintas. A ciência e a arte caminhando de mãos dadas, criando novos processos de criação de imagens. Edgar Degas (1834-1917) instigava o movimento, criava recortes da realidade e pintava instantes efêmeros, incitando uma percepção nitidamente influenciada pela fotografia, que a esta altura já era amplamente aceita pelas artes. Enfim, o final do século XIX propunha à humanidade, um novo olhar sobre a pintura.

Detalhe para a profundidade de campo e recorte do quadro Aula de Dança de Edgar Degas - 1874

Publicado em: às 2 de julho de 2010 em 4:27 PM  Comentários (2)  
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Enfim, o homem conseguiu parar o tempo…


Infelizmente a Arte não incluía manual

Todo artista, tem um talento ou um dom…  e os que admitem não possuir nenhum desses requisitos tem de se esforçar muito para apresentar algo decente.  A litografia era popular no início do Século XIX, e um quarentão aposentado da marinha chamado Joseph Nicéphore Niépce (1765-1833) queria fazer uma gravura, mas não tinha habilidade para desenhar.

Utilizando-se de uma câmara obscura, Niépce tentou gravar imagens em papel litográfico revestido com cloreto de prata e sorridente, conseguia imagens mal formadas, sem contrastes e que sumiam rapidamente pois não se fixavam no papel. Chamou esse processo de Heliografia, que significa gravar com sol.

Depois que Niépce conseguiu gravar suas imagens, sua preocupação se voltou para a fixação das mesmas. Pesquisas com substâncias químicas e placas de metal ao invés de papel litográfico, fizeram com que a primeira foto permanente e a mais antiga do mundo surgisse em 1826. O problema desse processo é o longo tempo de exposição, a falta de meios tons, além da imagem não ser muito nítida.

Foto feita por Nicéphore Niépce em 1826

 

Primeira fotografia de Niépce em 1814. Utilizou Betume da Judéia

 

 

Quando Niépce fixou sociedade com Louis-Jacques-Mandé Daguerre (1787-1851) suas pesquisas já estavam avançadas, e muito pouco obteve dessa parceria. Em 1833, Niépce morre sem saber o quanto foi importante para a fotografia. Entre 1835 a 1839, Daguérre retoma os estudos de seu falecido sócio e normatiza as operações para a realização da fotografia:

A) utiliza o iodeto de prata aplicado em vapores sobre uma placa de cobre;

B) a placa é fixada em uma câmara escura;

C) permanece em exposição por certo período;

D) imediatamente mergulhada em mercúrio aquecido para aparecer a imagem e;

E) fixando-a como banhos em solução saturada de sal de cozinha.

Em 1839 Daguérre completa todas essas etapas em 72 minutos, criando assim as condições para o Daguerreótipo.

Daguerreótipo

Bom, o Naturalismo estava na veia de Daguerre muito antes do invento do Daguerreótipo. No período que compreendia sua sociedade com Niépce, seu maior interesse era o Diorama, uma espécie de cópia exata de um ambiente tridimensional em miniatura. Permaneceu com o interesse em comercializar esse tipo de arte, mas seu maior Diorama, no qual se dedicou a construir por anos, se perdeu em um incêndio. Daguérre, que neste momento estava em situação financeira delicada, fez um acordo com o herdeiro de Niépce e os dois cederam os direitos patrimoniais sobre o Daguerreótipo ao Governo Francês, em troca de uma pensão vitalícia.

O fato é que o ser humano, pela primeira vez, conseguiu capturar e preservar um instante. O noção de tempo experimentava a relatividade. O homem tinha criado um meio de copiar a natureza, de modo mais realista possível. Depois da fotografia, todas as artes, costumes e processos científicos e culturais iriam ser influenciados. A educação do olhar cinematográfico ganhava mais um alicerce, estava criada a mais importante base tecnológica para a invenção do cinema.

Por causa da longa exposição, objetos em movimentos não eram captados pelo Daguerreótipo. Isso explica porque essa fotografia tirada em 1839 estava com as ruas desertas.

Publicado em: às 27 de junho de 2010 em 12:32 AM  Deixe um comentário  
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Pintarei antes do clique


Até o advento da fotografia, a arte da pintura era responsável por representar a realidade da melhor forma possível. No Renascimento as perspectivas Geométrica, Linear e Atmosférica foram utilizadas pela pintura nos séculos seguintes, e depois pela fotografia e cinema.

No mesmo período em que a ciência se esforçava para criar os primeiros registros fotográficos, surgia uma tendência na literatura, teatro e artes plásticas chamada de Naturalismo. Convencidos de que apenas as leis naturais governavam o mundo,  o urbano e seu cotidiano seriam motivos suficientes para construir uma mimesis da natureza.

A Bar at the Folies-Bergère - Édouard Manet,1882 -Courtauld Institute of Art, London

O macaco não imita o homem? A arte embarcou nesse conceito tentando imitar Deus. Nunca conseguimos a perfeição e tamanho poder de criação para nos sentirmos satisfeitos, mas nada impediu o Homem de continuar tentando. Algumas dessas tentativas de imitar a natureza, fizeram escola no campo da pintura do Século XIX.

Se o Romantismo apontava as mazelas da revolução industrial, criticava o racionalismo científico e as condições de vida nas grande cidades; por outro lado, exaltava o sentimento como motor da criatividade e expressão do artista.

La Liberté guidant le peuple. Eugène Delacroix, 1830. Museu do Louvre

Na época em que a ciência se debruçava nos estudos da ótica, o romantismo renegava qualquer inspiração científica no processo de pintura. A europa, cada vez mais conturbada, sentia em toda sua estrutura os efeitos da a Revolução Francesa, da Era Napoleônica e da Revolução Industrial. Esse choque cultural evidenciado nas artes, pode ser observado em 1830 quando  Eugène Delacroix (1798-1863)- o maior representante da pintura romântica na França  - apresentou sua obra La Liberté guidant le peuple (a Liberdade guiando o povo) em comemoração à Revolução de Julho de 1830. Além da magnífica técnica de pintura, o tema político aponta uma grande tendência da arte como instrumento de crítica da sociedade, processo fundamental para a mudança gradativa da representação da imagem.

Willian Turner (1775-1851), além de reiterar os princípios do romantismo, dedicou-se no final de sua carreira, a estudar os efeitos de luz e cores, criando uma atmosfera tão singular em seus quadros, que muitos defendem a idéia de que ele tenha sido um precursor do Impressionismo.

William Turner. Yacht Approaching the Coast. 1835. Tate Gallery, London, UK.

Édouard Manet (1832-1883) foi criticado em sua época pelos temas escolhidos, como pela técnica utilizada na realização de seus quadros, fugindo das normas acadêmicas. Manet influenciou e deixou-se influenciar pelos impressionistas, que trariam para o campo das artes, todo um pensamento científico sobre a Ótica.

Daedaleum: A Roda do Diabo


Roda, roda, roda e avisa...

Não totalmente evidenciado, mas geralmente interpretado como The Wheel of the Devil, o termo Daedaleum foi prontamente substituído por Zoetrope (zootrópio) quando foi registrado em solo americano por Willian F. Lincoln.

Etimologicamente temos ζωή (zoe = vida) + τρόπος (tropos = giro, roda) e quer dizer Roda da Vida. Mas foi utilizando o nome Daedaleum que o matemático britânico Willian George Horner (1786 – 1837) apresentou em 1834 seus estudos sobre a persistência retiniana.

O livro Science and Civilization (google books) comenta a utilização de um aparelho similar ao zootrópio na China no final no Século II. Esse é um fato incrível, mas gostaria de permanecer nos estudos sobre a Persistência Retiniana que aconteciam na década de 30, na Europa do século XIX. Quase que simultaneamente, Plateau, von Stampfer e Horner criaram seus dispositivos óticos. Em todos os casos, tais dispositivos tornaram-se brinquedos infantis.

Uma fortuna

Pode ser um exagero, mas se compararmos o Taumatrópio com o Playstation I, a sequência correta seria Fenaquistoscópio como PS2 e Zootrópio, PS3. Tecnologicamente, o aparelho de Horner inovou em design, em múltiplas animações e principalmente por acabar com o processo individual de percepção da animação. O zootrópio transformou toda a ilusão criada por este brinquedo, em uma experiência de grupo.

O Diferencial no Produto

Caindo nas graças do público infantil e adulto, o zootrópio era vendido em lojas de brinquedos infantis, mas também podia ser encontrado como brinde em latas de café ou biscoito. Como produto, este brinquedo ótico se propagou facilmente, criando uma vagarosa, mas fundamental educação do olhar. Quando o cinema de fato chegou, sessenta anos mais tarde, a cultura da ilusão do movimento através de dispositivos científico-tecnológicos já estava firmada.

Coleção Richard Balzer - Lata de Biscoito Art Déco

Sobre as influências do zootrópio nas artes plásticas veja  Analog Art Map Research e Bill Brand.

Imprima_seu_Zootropio

Rock’n roll, Baby!


Só rodar o disco, que o ritmo aparece!

“The 19th century was the century of science. In physics, and particularly in optics, the scholars, academicians and simple practitioners who determined the course of technological progress in that era found time to study the persistence of images on the retina. . . The interest in moving images, rooted in the ancient human need to reproduce existence as faithfully as possible, was finding its first technological realizations.”

(Bendazzi, Gianalberto. Cartoons: One Hundred Years of Cinema Animation. Bloomington: Indiana UP, 1994, pag. 3)

Lembra do taumatrópio? Simples, näo? Alternar dois desenhos realmente cria uma ilusão interessante, mas depois de um tempo, não fica sem graça? A ciência parece ter achado isso quando os estudos mais aprofundados do princípio da persistência retiniana permitiram a criação de brinquedos óticos mais elaborados!

Inspirado nos trabalhos desenvolvidos por Peter Mark Roget e Michael Faraday, o primeiro a apresentar uma evolução do taumatrópio, foi o físico e matemático  Joseph Plateau (1801 – 1883) com o seu Fenaquistoscópio de 1832. O instrumento é formado por dois discos, um deles possui pequenos orifícios equidistantes, através dos quais o observador pode olhar um outro disco que contém uma sequência de imagens. Quando os dois discos são rotacionados e alcançam a velocidade correta, a sincronização dos orifícios com as imagens cria o efeito da animação.

Phenakistoscope - o nosso Fenaquistoscópio.

Etmológicamente, fenaquistoscópio é a união de duas palavras gregas φενακιστής (phenakistēs, “trapacear, enganar”) + sufixo -scópio σκοπέω (skopeo, “examinar, olhar por ou entre). Toda essa complicação para chama-la de máquina de ilusão ótica.

Como Matemático, Plateau conseguiu medir o tempo da persistência retiniana (um décimo de segundo), confirmando a necessidade de um descanso entre as imagens para a criação da ilusão ótica. Em seus cálculos, 16 era o número apontado como sendo a melhor quantidade de imagens para produzir uma perfeita animação. Seus estudos sobre a impressão da luz na retiniana o levaram a perder a visão no fim de sua vida, quando em um de seus experimentos, Plateau se pôs a observar diretamente o sol, sem proteção e por 25 segundos. Ele foi o menino que queimou o dedo primeiro, depois de ver o que acontece, ninguém mais tentou sem proteção (hélioscópio).

As vezes as idéias ficam pairando no ar até alguém fisgá-las. Será que várias pessoas podem captar as mesmas idéias?Foi isso o que aconteceu de forma independente em 1833. Outro matemático – dessa vez um austríaco – de nome Simon Ritter von Stampfer (1790/92 – 1864) criou seu Estroboscópio, um brinquedo ótico muito similar ao Fenasquistoscópio. A diferença é que o estroboscópio tinha apenas um disco com orifícios, um lado negro e outro com sequência de imagens. Para perceber a ilusão, bastaria posicioná-lo diante um espelho e olhar através dos orifícios. Outra diferença entre os aparelhos é que o brinquedo ótico de Plateau era independente, funcionava por si só, enquanto o estroboscópio exigia uma interação com o espelho. O resto é tão parecido, que atualmente chamamos ambos objetos de Fenaquistoscópio. A palavra estroboscópio está mais ligada a um efeito de iluminação; o piscar de uma lâmpada em um ambiente escuro, cria uma impressão de movimento animado, intercalando imagem e escuridão, simulando o efeito alcançado pelos brinquedos óticos.

Como produto comercial, o fenaquistoscópio emplacou no gosto das crianças, adolescentes e adultos. Tornaram-se um brinquedo ótico mais requintado, onde refill de discos com animações eram vendidos separadamente. Tão logo os Nickelodeon fizeram sucesso, o ato de assistir à uma animação se tornou um evento social.

Ludoscópio, era apenas mais um nome para o Fenaquistoscópio

Nos anos 20 do século passado Felix the Cat, estampava o Gramophone, sistema similar ao Fenaquistoscópio

Ludibriando o cérebro


Thaûma + Torpor

Os anos 20 do século XIX se tornaram decisivos no processo de produção e percepção das imagens. No campo da produção, os experimentos de Joseph Niépce (1765-1833) e seu sócio Luis Daguerre (1787-1851) criaram as condições para a invenção da fotografia, elemento fundamental para as pesquisas de movimento com sequências de imagens.

Muito antes destes processos complexos, alguns cientistas se preocupavam com o funcionamento  da percepção humana acerca do movimento. Em 1824, Peter Mark Roget apresentou um artigo à  Royal Society de Londres (pdf original: The_Persistence_of_Vision_with_Regard_to_Moving_Objects_by_ Peter_Mark_Roget_1824), onde discutia a sensação ilusória de se enxergar uma roda de carruagem rodar ao contrário durante seu movimento normal de rotação. A teoria da Persistência Retiniana comandou por muitos anos o campo da neurofisiologia e neurologia acerca do processo de percepção das imagens. Hoje em dia, essa teoria é completamente errônea, são os efeitos phi (Φ) e beta (β) os mecanismos responsáveis pelo processo de formação das imagens em movimento.

Ainda em 1824, o físico inglês John Ayrton Paris (1785-1856) fez uma demonstração do funcionamento da Persistência Retiniana ao Royal College of Physicians utilizando o Taumatrópio. Historicamente, há uma divergência da real patente deste brinquedo ótico. Alguns relacionam o invento à Peter Mark Roget que o apresentou na mesma data da publicação de seu artigo. De fato, qualquer um dos possíveis inventores, se baseou nas idéias do astrônomo John Herschel (1792-1871).

Taumatrópio significa o que se transforma em algo maravilhoso, formado pela junção das palavras gregas thaûma (maravilha) + tropos (girar, transformar). Trata-se de dois discos com desenhos diferentes unidos por um cordão, elástico ou barbante. Ao girarmos o taumatrópio, as imagens aparentemente se unem, formando uma única imagem perceptível.

Não demorou muito tempo para que, a respeito das lanternas mágicas, os taumatrópios se tornassem brinquedos. Até o início do século XX, muitos eram vendidos em lojas e feiras.  Na Inlgaterra, na Era Vitoriana, o Taumatrópio era o brinquedo mais popular, instigando interesses comerciais e científicos.

Jogo do Taumatrópio, publicado por Mauchair Dacier. Paris 1891 www.dickbalzer.com

Para reforçar o efeito ilusório, um lado preto&branco...

... do outro lado, litografias coloridas.

Taumatrópio em ação

E agora, que tal fazer o seu?

Fantasmas imagens ou imagens fantasmas?


Os pequenos consumidores, ávidos por brincadeiras caras!

Quando o homem entendeu que a câmara obscura precisava ser escura para captar a imagem do ambiente, não demorou muito para criarem um ambiente escuro para captar a imagem proveniente de uma câmara. Este aparelho, amplamente utilizado pela astronomia desde o século XIII, sofreu poucas modificações até o século XVII. Athanasius Kircher, um matemático alemão de formação jesuíta publicou em 1646 o texto Ars Magna Lucis et Umbrae (A Grande Arte da Luz e Sombra)[ leia o texto original]onde citava a Lanterna Mágica, uma simples caixa com uma fonte de luz interna e um espelho curvo que refletia a luz através de lâminas de vidro pintadas. Kircher era colecionador de plantas exóticas, e se inspirou na coleção de Giovanni Bapttista Della Porta (1540-1615), um físico italiano que, além das plantas, admirava o campo da Ótica. Giovanni teve a idéia de fazer da Câmara Obscura uma atração popular. Kircher percebeu que seria mais fácil controlar a luz dentro de uma câmara, ao invés de ficar atado às condições da natureza, como era o caso da câmara obscura. Seu feito foi tão surpreendente que o sujeito foi acusado de bruxaria, só por projetar imagens. Não é de se espantar que o interesse popular tenha sido imediato.

Lanterna mágica fabricada atualmente

Em seu livro Arte da Animação – técnica e estética através da História, Alberto Lucena Júnior comenta: “O artista é um ilusionista e, como tal, deve buscar transcender a matéria ou a técnica com a qual lida, ludibriando o espectador. O cientista deve atuar exatamente ao contrário, lidando com regras claras e mantendo-se firmemente ligado à natureza das coisas”.

Em 1794, o fantoscópio foi inventado. Nada mais era do uma adaptação da lanterna mágica com algumas melhorias, como um projetor duplo, por exemplo. Etiene Gaspar Robert desenvolveu esse novo aparelho que criava as ilusões em seu espetáculo Fantasmagoria, projetando imagens de fantasmas e esqueletos aterrorizando e encantando multidões, mesclando arte e ciência com maestria.

fantoscópio

Cartaz

Gif animado - clique aqui

Franz von Uchatius, um austríaco que em 1850 fez melhorias na Lanterna Mágica, criou um sistema de projeção, combinando duas placas de vidro pintadas, uma dela inclusive, funcionava como um obturador, criando verdadeiramente uma ilusão animada.

Mas no final de tudo isso, podemos apontar vários pseudo inventores da Lanterna Mágica, mas quem a difundiu, fabricou, vendeu e, enfim, transformou-a em um produto foi Cristiaan Huygens (1629-1695). Veja o google book de Laurent Manonni “A Grande Arte da Luz e Sombra: Arqueologia do Cinema”

Um sorriso amarelo como o Sol


Ciência e arte, um caminho certo até o cinema

Naquele período curto na história da humanidade, chamado Era Medieval, pouco se fez em relação à representação do movimento. Os anjos de Giotto pintados em posições diferentes, sugerem ação em sua obra. De maneira semelhante, em pleno Renascimento, o Homem Vitruviano de Leonardo da Vinci nos apresenta duas posições diferentes do mesmo homem. Forçando a imaginação podemos vê-lo fazendo polichinelo bem tosco.

A maior contribuição de da Vinci ao cinema se deu na introdução de uma lente para melhor captar a imagem formada pela câmara obscura. A utilização de um equipamento científico como este fez com que novas perguntas fossem formuladas, possibilitando o desenvolvimento de aparelhos óticos até o advento da fotografia.

A Lamentação, de Giotto, 1305 (Arena Chapel, Padua)

Exemplo de como os artistas utilizavam a Câmara Obscura

Matt Gatton recentemente evidenciou o uso da câmara obscura desde o período Paleolítico, quando comparou a pintura Up Side Down Horse feita há 28000 anos a. C. na gruta de Lascaux com o efeito da projeção invertida da câmara obscura. Para saber mais detalhes clique neste LINK

Up Side Down Horse

Mas temos que tirar o chapéu para um físico e matemático árabe chamado Alhazen (965-1040 d.C.). Historicamente, ele é reconhecido como o recriador da Câmara Obscura e, além disso, Alhazen contestou todas as teorias grecorromas acerca do processo de formação da imagem através da visão.

Para Platão (428-348 a.C.), haveria dentro de nós o chamado fogo divino que  sai dos nossos olhos até detectar um objeto. Assim, tal fogo divino sai dos olhos e encontra a luz emitida pelo objeto. A união entre essas duas luzes formaria a visão. Vários pensadores desde Zenão, Ptolemeu até Galeno, defenderam a proposta de Platão confirmando a emissão de raios pelos olhos. Apenas Epícuro (341-280 a.C.) contestava essa idéia! O mais interessante é que as bases matemáticas criadas, possibiltaram a formulação da Ótica de Euclides, Arquimedes,  Apolonio.

Alhazen criou uma série de tratados sobre Ótica, abordava temas como direção da luz, corpo emissor de luz, e processos reflexivos. Foi para estudar um eclipse lunar que ele utilizava a câmara obscura.

Selo com ilustração de Alhazen

Fisiologia do Olho Humana por Alhazen

Passado séculos após o Renascimento, as câmaras obscuras se tornaram ambientes altamente lucrativos. No século XIX, elas se multiplicaram nos parques dos Estados Unidos. Central Park abrigava uma câmara obscura, e cobrava entrada do público oferecendo a mais bela ilusão de ótica. A fotografia e os brinquedos óticos já existiam, mas talvez o acesso ao público fosse bem mais restrito do que imaginamos. Por outro lado, a construção de uma câmara obscura representava um pequeno investimento, haja vista o volume de espectadores que se amontoavam dispostos a pagar ingresso.

Câmara obscura popular. Lugares abertos e bem iluminados.

Cartão de visita que na verdade era uma propaganda da câmara obscura do Central Park, N.Y.

Cartaz propaganda

Cartão de visita

Diversos modelos de Câmara obscura

De certo modo, as câmaras obscuras tornaram-se as salas de cinema primitivas que, anos depois, dariam espaço ao Teatro Ótico de Émile Reynaud e finalmente, as exibições cinematográficas. A indústria que fabricava máquinas, enxergou o poder lucrativo do entretenimento. O teatro já possuía sólida presença na cultura popular, mas arte e entretenimento através de uma máquina? A realidade do espetáculo, presenciada pelo espectador de teatro, seria transformada pelo cinema, em uma experiencia virtual, parte de um processo psicológico e ilusório.

O fascínio pelo movimento.


As superfícies primárias na representação do movimento

Nossa visão, além de nos proporcionar a visão,  nos permite também, a larga percepção dos movimentos . Outrora caçando, se protegendo, ou mesmo observando, o homem treinou o seu olhar para captar toda ação possível. Muito conhecimento precisava ser passado às futuras gerações, essa necessidade de registrar, fez com que as paredes se tornassem as primeiras telas da humanidade, e através delas muitas comunidades difundiram seus ensinamentos, suas culturas, lendas, religiões, leis e história.

O exemplo mais clássico dessa narrativa ligada a representação do movimento, é a luta wrestling egípcia pintada na parede há  5 mil anos.

Detalhe

Templo Khafaji no Iraque

Reprodução

Nitidamente, podemos ver uma sequência de movimento no mais completo estilo Muybridge,  além de sua narrativa peculiar. Os egípcios utilizavam as pinturas e seus hieróglifos como código social, justificando, por exemplo, o poder divino de seus faraós.

Os gregos conseguiram expressar o movimento em outros suportes além da parede. É o caso dos vasos gregos que ilustravam sequências de imagens de seus esportistas olímpicos. Na imagem a seguir, a sugestão ao movimento relembra a pintura na caverna em Altamira, do Javali de oito patas.

Vaso Grego

As esculturas gregas ganharam movimento na transição do período arcaico para o clássico, no chamado período severo entre 500 e 450 a.C. O contraposto sugerido por Efebos de Kritios abre o caminho para que, já no período clássico, Míron possa criar seu Discóbolo.

Efebos de Kritios, 480 a. C. Museu da Acrópole de Atenas

Discóbolo de Míron, 455 a. C. Gliptoteca de Munique

Até onde sabemos, este é o início:


Deuses não disseram: Faça-se a luz

O cinematógrafo foi inventado por Léon Bouly em 1895, que perdeu a patente para os Irmãos Lumière. Assim, os irmãos ficaram reconhecidos por serem os inventores do cinema, mas de certo não o inventaram. O cinematógrafo era um dispositivo fotográfico que imprimia uma sequência de imagens em película fotossensível. Só fazer um google que essas informações se replicam.

De fato, o cinematógrafo foi um marco na história do cinema. Fez o que o kinetoscópio e kinetógrafo de Thomas Edison não conseguiram. A projeção era o seu diferencial. Tal poder de exibição para grandes platéias foi o que consagrou este aparelho como um dispositivo altamente rentável. Mas não foi esse o início de tudo.

Vamos retirar desse assunto: os dispositivos óticos, a arte, e a economia. O cinema dos Irmãos Lumière não apenas é uma evolução tecnológica, mas também consiste em um processo evolutivo de contar histórias. São as histórias que nos levam ao cinema e não as câmeras e os projetores. O homem é um ser comunicativo por essência, e sua vontade de contar histórias remontam nossos tempos mais arcaicos.

Nas cavernas de Altamira, na Espanha, muitas pinturas rupestres retratam animais. Tudo era feito com pigmentos, sangue, de forma bem rudimentar, ilustrando a vida que existia fora da escuridão da caverna. Procure por pinturas rupestres na internet e encontrará boas imagens que retratam o que acabei de escrever.

Mas quero apontar uma pintura especificamente. Veja essa imagem a seguir:

Pintura rupestre de um Javali

Incrível como há 30 mil anos, o homem conseguiu reprooduzir este animal, não concorda? Mas essa é uma imagem alterada com photoshop. A seguir a imagem verdadeira.

Javali de 8 patas pintado nas cavernas de Altamira, Espanha.

O que poderia representar essa pintura? Sei lá, vai que o sujeito realmente queria pintar um javali mutante, e a gente fica aqui viajando. Mais aceitável, é a conclusão de que essa pintura tenta retratar o movimento do animal. Utilizando o computador, somos capazes de criar uma animação bem rudimentar com este desenho. Se o autor dessa pintura quis demonstrar o movimento de seu javali, vamos dar uma forcinha!

Fontes Inspiradoras:
http://motion.kodak.com/US/en/motion/Hub/history1.htm / http://www.precinemahistory.net/ - WILLIAMS, Richard. The Animator’s Survival Kit. New York: Faber & Faber, 2001. / LUCENA JUNIORAlberto. Arte da Animação – técnica e estética através da História. Senac. São Paulo. 2002. / MANNONI, Laurant. A Grande Arte da Luz e da Sombra: Arqueologia do Cinema. São Paulo: Editora SENAC; Sâo Paulo: UNESP, 2003. / GATTON, Matt. First Light: Inside the Palaeolithic camera obscura em Acts of Seeing: Artists, Scientists and the History of the Visual. Londres: Zidane, 2009.

Vamos falar de Cinema?


Cinema é algo tão presente na vida do ser humano que dificilmente poderíamos imaginar como ficaríamos sem ele.  Qual é o limite da evolução das imagens em movimento? O cinema estará presente na vida do ser humano por muito tempo?

Muitas perguntas, com certeza! Tenho uma opinião, creio que o nome cinema – que tem sua origem no Grego κίνημα ou kinema, e quer dizer movimento – poderá mudar, mas haverá outros nomes que definirão essa interessante relação entre um espectador e uma narrativa.

Atualmente, a indústria audiovisual iniciou uma corrida acelerada rumo às imagens tridimensionais. Televisores, canais de televisão, e computadores pessoais já estão surgindo para exibir suas imagens em 3D. Apenas por uma questão tecnológica, nossos filmes ainda são projetados em telas planas, mas estas salas de exibição ainda irão projetar filmes em um ambiente similar à uma arena, tão logo as imagens possam se deslocar no espaço.

Ainda não é o momento de discutir novas formas de se contar histórias por imagens em movimento. Se fizermos assim, iremos nos basear em muitos achismos. Precisamos de referencias para embasar qualquer opinião, e é isso que pretendo fazer. O que atualmente não existe, é um site, blog ou wiki que nos forneça textos simples, com conteúdo real, e possibilidade de assistirmos aos filmes clássicos ao invés das imagens estáticas estampadas nos livros de cinema. É função social da internet, facilitar a comunicação, e permitir à população o acesso aos conteúdos que, por inúmeros motivos, são omitidos, bloqueados, impedidos, ou mesmo escondidos.

*Fonte inspiradoras:  http://en.wikipedia.org/wiki/Cinematography  - http://motion.kodak.com/US/en/motion/Hub/history1.htm -

Publicado em: às 26 de maio de 2010 em 1:04 AM  Deixe um comentário  
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